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Um Guia para o Sistema Monetário Kinesis

A Kinesis Money é uma plataforma monetária construída em torno do ouro e da prata físicos. Permite que indivíduos e empresas comprem, mantenham, transfiram, gastem e recebam metais preciosos por meio de um sistema de pagamentos digitais.

Em vez de depender exclusivamente de moedas fiduciárias, a plataforma utiliza dois tokens nativos: o KAU, que representa um grama de ouro, e o KAG, correspondente a uma onça de prata. De acordo com a documentação legal da Kinesis, cada token confere ao titular a propriedade direta de metal físico totalmente alocado, armazenado em cofres segurados e geridos de forma independente em vários dos principais centros mundiais de negociação de metais preciosos. Essa correspondência, de um para um, entre os tokens e o metal físico é auditada duas vezes por ano, de forma independente, pela Bureau Veritas, empresa global de inspeção, testes e certificação.

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Com isso esclarecido, vamos explorar o que realmente é o Sistema Monetário Kinesis e como ele funciona.

A ideia de usar metais preciosos como dinheiro está longe de ser nova. Em 1830, o economista britânico Nassau William Senior observava que “a portabilidade dos metais preciosos e a universalidade da procura por eles tornam todo o mundo comercial um único país, onde o metal precioso é a moeda”. Enquanto tokens lastreados em ouro, como Pax Gold e Tether Gold, foram concebidos sobretudo como produtos de investimento, os KAU e KAG da Kinesis foram criados para funcionar como moedas digitais dentro de um sistema monetário mais amplo. A proposta é, portanto, recuperar na esfera digital uma função que os metais preciosos desempenharam durante séculos: a de dinheiro.

Por que as pessoas estão olhando além das moedas fiduciárias: A busca por Moeda sólida

“Ao acabar com a hiperinflação, o plano deu poder de compra ao salário do trabalhador. O salário não derretia mais, e o trabalhador não tinha de correr para o supermercado no primeiro dia em que recebia o seu salário para chegar antes das maquininhas remarcadoras de preços. Todo esse pandemônio que era a vida do brasileiro com a inflação ficou para a história.” (Edmar Bacha, economista brasileiro y principal arquiteto do Plano Real)

Poucos países conhecem tão bem quanto o Brasil o que significa perder a confiança na moeda. A história de inflação crônica, com episódios que chegaram a níveis hiperinflacionários no início dos anos 1990 — quando as taxas mensais ultrapassaram 70% a 80% nos picos — deixou marcas profundas em famílias e empresas.

A memória do Cruzado, do Cruzeiro e das diversas experiências monetárias que antecederam o Real ainda permanece viva para muita gente. O Plano Real trouxe uma estabilidade monetária muito maior, enquanto a taxa Selic tem sido mantida, em períodos recentes, em níveis elevados como parte do esforço de contenção da inflação. Ainda assim, muitos investidores continuam a valorizar a diversificação para ativos que não estejam diretamente vinculados a uma única moeda nacional.

Os efeitos da inflação são conhecidos, mas nem por isso menos silenciosos. Aposentados que dependem de rendas fixas veem o poder de compra das suas economias diminuir. Poupadores mais conservadores acabam, por vezes, assumindo riscos maiores do que gostariam apenas para tentar acompanhar a inflação. E investidores menos sofisticados — ou aqueles que têm acesso limitado aos instrumentos financeiros — podem assistir à erosão gradual do seu patrimônio sem sequer perceber plenamente o que está acontecendo. Segundo a Global Findex Database do Banco Mundial, em 2024, 70% dos adultos da América Latina e do Caribe possuíam uma conta financeira — excluindo países com níveis de inclusão significativamente superiores, como Chile e Uruguai. Isso significa que cerca de 30% da população ainda permanecia fora do sistema bancário.

Não é de estranhar, portanto, que muitas pessoas procurem alternativas. O que procuram é, em parte, um meio de troca que resista ao enfraquecimento provocado pela criação arbitrária de dinheiro. Foi justamente essa característica que, entre outras razões, tornou o Bitcoin tão atraente nos seus primeiros anos, antes de passar a ser visto sobretudo como um ativo de investimento e especulação.

O ouro à margem do debate monetário

Há um paradoxo nessa história. Enquanto as moedas fiduciárias perdiam poder de compra ao longo do tempo, o ouro era progressivamente empurrado para as margens das finanças e do debate monetário. Em A Tract on Monetary Reform (1923), J. M. Keynes já havia classificado o padrão-ouro como uma relíquia bárbara. Décadas mais tarde, numa coluna publicada em julho de 2015 no The Wall Street Journal, o jornalista financeiro Jason Zweig chamou ao ouro de pet rock, ou “pedra de estimação”, expressão que passou a resumir uma visão crítica mais ampla do ouro enquanto investimento. Grande parte dos consultores de investimento e analistas financeiros também partilhava a visão desdenhosa de Warren Buffett de que o ouro seria, essencialmente, um ativo improdutivo guardado num cofre: “[O ouro] é extraído do solo em África, ou algures assim. Depois, derretemo-lo, cavamos outro buraco, enterramo-lo novamente e pagamos a pessoas para ficarem ali a vigiá-lo. Não tem qualquer utilidade.”

Mas a transformação foi além da maneira como o ouro passou a ser visto enquanto investimento. O seu papel como dinheiro também foi relegado a segundo plano, tanto no sistema monetário moderno quanto no debate financeiro.

Com o tempo, a ideia de que o ouro já não teria qualquer função monetária relevante na economia contemporânea tornou-se quase uma evidência. Basta observar os fóruns de investimento online: o ouro aparece quase sempre entre as commodities, e não entre as moedas. A sua longa história monetária parece, assim, ter sido reduzida a uma curiosidade histórica. É difícil não lembrar, nesse contexto, a famosa resposta de Ben Bernanke durante uma audiência da Comissão de Serviços Financeiros da Câmara dos Representantes, em 2011. Questionado pelo deputado Ron Paul sobre por que razão os bancos centrais ainda mantinham ouro se este já não era dinheiro, Bernanke respondeu com uma única palavra: tradição. (Curiosamente, o Banco de Portugal afirmava que o ouro constitui um meio de pagamento internacional: “O ouro monetário é um ativo de reserva, constituindo um meio de pagamento internacional e de reserva de valor.”)

Expansão monetária: vencedores e vencidos

Acredito — talvez devido a uma espécie de efeito Cantillon — que o desacoplamento entre o dinheiro e o ouro tenha beneficiado o establishment financeiro muito mais, senão de forma exclusiva, do que o cidadão comum. O efeito Cantillon descreve, em termos simples, a ideia de que o dinheiro novo não chega a todos ao mesmo tempo. Aqueles que estão mais próximos da sua criação tendem a recebê-lo primeiro, antes que os efeitos sobre os preços se espalhem pela economia.

Acredito também que, diante da criação contínua de dinheiro inerente aos sistemas monetários fiduciários e da consequente desvalorização cambial, investidores sofisticados desfrutem de vantagens substanciais em relação à pessoa comum. Entre essas vantagens estão o acesso a informações superiores e a produtos financeiros complexos que permanecem amplamente desconhecidos — e, muitas vezes, inacessíveis — para a maioria das pessoas, sobretudo para os desbancarizados e subbancarizados.

Por fim, considero que a desvalorização monetária provocada pela criação excessiva de moeda penaliza especialmente as famílias de rendimentos mais baixos. Quando a capacidade de poupar já é pequena, há também menos espaço para procurar proteção contra a perda de poder de compra.

Tornar os Metais Preciosos Mais Acessíveis

Em alguns países, o mercado de retalho de ouro e prata físicos é bastante desenvolvido, tornando a compra relativamente simples. Noutros, porém, ele praticamente não existe, deixando os pequenos poupadores com poucas alternativas reais. Mesmo onde existem distribuidores especializados, físicos ou online, comprar metais preciosos continua a ser consideravelmente mais complexo do que abrir uma conta-poupança ou investir num ETF. O investidor precisa decidir entre moedas e barras, escolher o tamanho adequado, organizar o transporte seguro, verificar a autenticidade na compra e na venda, encontrar condições competitivas de compra e venda e, sobretudo, decidir onde guardar o metal.

A conhecida máxima se não está na sua posse, não é realmente seu (If you don’t hold it, you don’t own it) é tratada por muitos investidores em metais preciosos quase como uma regra incontestável. Ela, no entanto, reflete sobretudo a realidade de quem vive em países estáveis e dispõe de condições de segurança e habitação que tornam possível manter ouro ou prata em casa. Para milhões de pessoas, a realidade é outra. Questões de segurança, condições inadequadas de habitação, instabilidade política ou proteção jurídica limitada podem tornar o armazenamento doméstico pouco prático ou simplesmente desaconselhável. Além disso, o princípio é difícil de aplicar à propriedade institucional. Um fundo de pensões pode ser proprietário de barras de ouro alocadas sem que alguém espere que essas barras sejam guardadas nas próprias instalações do fundo.

É nesse ponto que plataformas como a Kinesis procuram reduzir parte desses obstáculos. Através de um aplicativo no telemóvel, qualquer pessoa pode deter ouro e prata alocados. Na Kinesis Exchange, é possível comprar e vender metais contra moedas fiduciárias e criptomoedas a preços próximos dos praticados no atacado, com spreads mais baixos. Essa facilidade ganha particular importância para quem dispõe de recursos limitados. Ao contrário do ouro físico tradicional, que pode permanecer simplesmente armazenado, o sistema procura permitir que o poder de compra associado ao metal seja utilizado quando necessário.

A acessibilidade é reforçada pela elevada divisibilidade do KAU e do KAG. Os utilizadores podem comprar e vender quantidades extremamente pequenas de ouro e prata — a partir de apenas 0,00001 grama de ouro ou 0,00001 onça de prata. Torna-se, assim, possível investir e transacionar metais preciosos físicos mesmo com montantes muito reduzidos.

Na minha opinião, o contributo da plataformas como a Kinesis para o mercado dos metais preciosos apresenta um certo paralelismo com o papel desempenhado pela banca móvel na expansão da inclusão financeira nos mercados emergentes. Milhões de pessoas passaram a ter acesso a serviços financeiros através do telemóvel sem precisar de se deslocar a uma agência bancária. O M-Pesa, por exemplo, transformou o acesso aos serviços financeiros em partes da África Oriental ao permitir guardar e transferir valor através de telemóveis básicos.

Hoje, uma lógica semelhante pode ser aplicada aos metais preciosos: torna-se possível deter e utilizar ouro e prata sem recorrer necessariamente a um cofre próprio ou a um distribuidor especializado. A democratização do acesso a moeda sólida poderá revelar-se tão transformadora quanto foi, no seu tempo, a democratização do acesso aos serviços bancários.

Padrão Ouro 2.0: Moeda Sólida para a Era Digital

A abordagem da Kinesis não se limita a facilitar a compra e a guarda de ouro e prata. As carteiras digitais permitem transferências quase instantâneas; o Kinesis Card converte KAU ou KAG automaticamente em moeda local no momento da compra, permitindo pagar desde um café até despesas do dia a dia; e o Kinesis Pay permite que comerciantes aceitem pagamentos em metais preciosos. A ideia central é recuperar para o ouro e a prata um papel que durante muito tempo lhes pertenceu: o de dinheiro, e não apenas o de ativos de investimento.

O ceticismo diante de novas tecnologias de pagamento, por sua vez, está longe de ser novo. Quando surgiram os primeiros cartões de crédito, muita gente duvidava que alguém pudesse confiar o próprio dinheiro a um simples pedaço de plástico. Algo semelhante aconteceu com a banca online. No início, era comum ouvir que as pessoas jamais geririam as suas finanças por um site e que continuariam a ir à agência bancária para fazer uma transferência. Hoje, ambas as tecnologias fazem parte da vida quotidiana.

No Brasil, essa proposta encontra um terreno particularmente fértil. O país assistiu a uma rápida expansão das fintechs e da banca móvel na última década. Milhões de pessoas que antes tinham acesso limitado a serviços financeiros passaram a gerir as suas finanças pelo telemóvel, sobretudo graças ao Pix, que transformou os pagamentos instantâneos. Os pagamentos internacionais, porém, continuam muitas vezes lentos e caros através dos canais tradicionais.

É nesse contexto que a Kinesis pode ser vista como uma evolução digital do padrão-ouro: uma espécie de Padrão-Ouro 2.0. A ideia não é regressar ao sistema monetário do século XIX, mas combinar a disciplina monetária tradicionalmente associada ao ouro com a velocidade e a praticidade dos pagamentos digitais.

Há, ainda, uma diferença fundamental em relação ao padrão-ouro clássico: a adesão é voluntária. Cada pessoa pode escolher se quer poupar ou pagar em metais preciosos ou se prefere continuar a utilizar moedas fiduciárias. Na minha opinião, esse caráter voluntário e a consequente concorrência entre moedas estão entre os pontos fortes do modelo. Oferecem a pessoas e empresas aquilo que poderíamos chamar de livre escolha monetária.

Perda do poder de compra do euro desde a sua introdução

A Importância do Allocated Bullion Exchange (ABX)

A Kinesis baseia-se na Allocated Bullion Exchange, ou ABX, uma plataforma institucional dedicada à negociação e ao armazenamento de metais preciosos físicos, iniciada em 2011 e plenamente lançada em 2016. Para o utilizador comum, o mais importante é a infraestrutura que existe por trás da camada digital. A rede consolidada da ABX inclui parceiros logísticos e cofres profissionais como a Malca-Amit, a Armaguard e a Loomis International.

Essas parcerias dão acesso a uma infraestrutura de armazenamento segurada e distribuída globalmente. O sistema trata dos registos de propriedade, das reconciliações e das auditorias independentes. É também por isso que as auditorias ao metal que garante o KAU e o KAG, realizadas pela Bureau Veritas, podem ser conduzidas de forma regular e eficiente. A camada digital assenta, neste caso, sobre uma estrutura de custódia profissional já estabelecida

O Ouro e a Prata Podem Voltar a Ser Dinheiro numa Economia Digital?

Os críticos da ideia de transformar novamente o ouro em moeda apresentam um argumento difícil de ignorar: sistemas lastreados em ouro teriam de competir com redes fiduciárias que já estão profundamente incorporadas na economia. As moedas nacionais estão presentes nas leis, nos impostos, nos contratos, nos salários e nos hábitos quotidianos. O dólar americano, por sua vez, ocupa uma posição dominante nas transações transfronteiriças.

Dentro da comunidade de investidores em metais preciosos, existe um amplo apoio à ideia de recuperar algum tipo de padrão-ouro — isto é, voltar a vincular o dinheiro a uma reserva física em vez de depender exclusivamente da confiança nas moedas fiduciárias. Essa visão, contudo, costuma vir acompanhada de alguma desconfiança em relação às soluções digitais, em parte como reação ao surgimento do Bitcoin e das criptomoedas. É comum encontrar uma visão nostálgica que pretende recuperar os sistemas de pagamento de há um século, quando o padrão-ouro ainda vigorava, e transportá-los quase sem alterações para uma economia que hoje é incomparavelmente mais complexa.

Nos círculos das criptomoedas, a crítica é praticamente a inversa. Muitos consideram a própria natureza física do ouro uma desvantagem — uma característica que, segundo essa visão, impediria qualquer recuperação significativa do seu papel monetário na era digital.

Entre essas posições, talvez exista um espaço mais interessante. A questão não é simplesmente escolher entre o ouro físico e a tecnologia digital, nem decidir se o sistema monetário do passado deve ser restaurado tal como existia. O verdadeiro desafio é perceber se as propriedades que fizeram do ouro uma forma de dinheiro durante séculos podem ser combinadas com a infraestrutura digital de uma economia moderna.

A questão central continua, portanto, em aberto: o ouro e a prata podem voltar a funcionar como moeda em economias construídas em torno de pagamentos digitais?

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